O som do coração.



'’Acorde Liliam! Pode me ouvir? Ela pode me ouvir?’’ Estas foram as primeiras palavras que a menina, com oito anos, ouviu, ao introduzir um implante coclear (ou o chamado ouvido biônico), corrigindo um problema de formação que até então a deixara surda total. Todo esse tempo privada de ouvir o canto dos pássaros, a música com a qual sonhava, o timbre da voz de sua mãe, a frustravam e a machucavam a cada dia mais. Convivia com o preconceito, a exclusão, a falta de respeito, por mais que alguns tentassem isolá-la de tudo isso.
A sede pela perfeição que uniu gregos, renascentistas, neo-classicistas, era a mesma que a levava a gritar por um equilíbrio físico, por uma vida ‘’normal’’. Defeitos que impunha a si mesma, obstáculos acumulados em cima de seu ego destruído. Amor próprio sufocado pela dor de encontrar em si um muro quase intransponível, uma característica que ao mesmo tempo a irritava e dava-lhe forças. Um conjunto de opostos, um paradoxo que a vida prega. ‘’O querer o que não tem’’ típico dos seres humanos, mais justificado e fortificado pelas condições em que a garota vivia.
Ainda assim, acima dessa vontade de ser outra pessoa, estava a vontade de viver. Aliada e sempre unida à vontade de viver, estava a ânsia e o ânimo por sorrir, por mais que visse sorrisos mais bonitos, rostos riquíssimos e adequados aos padrões de beleza e pessoas com audição perfeita. Audição a que não é dado o menor valor, adaptada a ouvir os próprios gritos de ordens.
A partir daí, de seus 8 anos, ouviu. Escutou a música que tanto queria, o som dos pássaros, descobriu que estes eram muitíssimos parecidos com os sons que fantasiava em seus pensamentos.
E então começou a ouvir brigas, choros e desespero. Ouviu gritos de intolerância entre as pessoas. Ouviu desrespeitos e calúnias sem pretexto algum, palavras que só tinham sentido de machucar. O barulho dos carros, das máquinas, da TV, da rádio, do computador, do liquidificador, da dor. Escutou músicas que só destroem o pouco de respeito que resta na humanidade, o som dos estilingues que matavam pássaros e descobriu que aquilo não era fazia parte dos seus sonhos. Foi-se abrindo uma ferida que queria devorar aquela vontade de ser feliz que antes possuía.
Aos 10 anos, começou a tapar os ouvidos. Cobria-o com algodão ou fazia qualquer coisa que a impedisse de ouvir perfeitamente. Fazia-o escondido para não parecer ingrata à mãe. E assim permaneceu, fazendo com o mundo o que queria que fizessem consigo. Deixou de ler lábios para reproduzir a fala das pessoas. Xingamentos, em seu pensamento, viravam acordes doces e lentos. Gritos eram o simples soar dos grilos à noite. Carros e eletrônicos emitiam notas que acariciavam suas orelhas como seda.
Só hoje, aos 17 anos,compreendeu o motivo de se sentir alguém visivelmente satisfeita e completa. Pura, lírica, poética. Sem qualquer traço de maldade. Compaixão e cuidado para com todas as coisas que existem é a lei que rege seus atos. Não se sente imperfeita, mas feliz. Nem melhor nem pior do que os outros seres humanos. Entendeu o porquê de nestes 7 anos ter-se voltado contra seu sonho antigo:

Ela havia aprendido a ouvir com o coração.

ps: Liliam, do LATIM, significa ''Lírica, poética''.

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